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Vista da Varanda

  • Writer: Ian Robertson
    Ian Robertson
  • Apr 11
  • 3 min read

Updated: Apr 13

Varanda de Ian
Varanda de Ian

Vista da Varanda

Encontrando o Silêncio em um Mundo no Limite


Estou aqui sentado na minha varanda, bem no meio do abraço verde da mata na Praia Vermelha do Sul, em Ubatuba. A praia fica a apenas 450 metros daqui, e o ar está carregado com o perfume das flores tropicais, o cheiro amadeirado da resina e da terra úmida. Mas o barulho aqui é de um tipo muito mais antigo e gentil.

As cigarras estão em coro hoje, criando uma "parede" de som vibrante enquanto buscam suas parceiras. É uma energia rítmica, pulsante, que parece o próprio coração da floresta batendo.

Fui agraciado com dois convidados especiais esta manhã. Primeiro, o Tiê-sangue: sua plumagem é de um vermelho tão intenso que parece uma fagulha de fogo perdida contra o verde profundo da mata. Depois, veio o Bem-te-vi. Seu peito amarelo vibrante brilha na luz, mas é o seu canto que impõe respeito. Uma frase alta, de três notas, que lhe dá o nome: "Bem-te-vi!". Literalmente, ele está dizendo que te notou.

Há algo que nos faz baixar a guarda quando somos observados pela natureza. Ela exige que você esteja presente.

Essa calmaria parece estar a um mundo de distância das manchetes. Enquanto me sento aqui, é difícil conciliar o balanço das árvores com a realidade dura da guerra entre Rússia e Ucrânia, ou as tensões crescentes envolvendo Israel, os EUA e o Irã. Os reflexos desses conflitos, a instabilidade econômica, a alta no custo de vida e o custo humano avassalador chegam a todos os cantos do planeta — até aqui.

É fácil confundir distância com imunidade; sentir-se seguro porque estou cercado pelo canto dos pássaros em vez de sirenes. Mas estar longe não é o mesmo que estar desconectado; os tremores do mundo ainda alcançam estas matas. Ver a beleza do Tiê-sangue me lembra do que está em jogo quando o mundo escolhe a destruição em vez da preservação.

Assim como as cigarras dependem da saúde desta floresta, a nossa estabilidade global depende de uma teia frágil de diplomacia e humanidade. Quando uma parte do mundo sofre, o impacto financeiro é apenas o sintoma de uma ferida coletiva muito mais profunda.

O Bem-te-vi grita: "Eu vi você". Talvez esse seja o nosso dever mais silencioso e vital para com aqueles presos em conflitos: continuar olhando, continuar reconhecendo a realidade deles e recusar o conforto do esquecimento.

A paz de Ubatuba é um presente, mas também um lembrete. Podemos estar longe geograficamente, mas precisamos permanecer próximos em espírito. Não podemos esquecer o mundo além das árvores — e, honestamente, nem deveríamos.

Enquanto o Bem-te-vi levanta voo, deixando apenas o eco do seu canto para trás, eu me pergunto: na segurança dos nossos próprios silêncios, como escolhemos encarar o barulho do mundo? Nossa paz é um muro que construímos para deixar o sofrimento do lado de fora, ou é a lente que usamos para enxergar o valor da vida humana com mais clareza?

O sol começa a baixar, filtrado pela copa densa em longos feixes de luz dourada. Essa é a ótica da floresta, onde a luz precisa lutar contra camadas de sombra só para tocar o chão.

Talvez nossa consciência devesse funcionar da mesma maneira. Precisamos permitir que a luz desses momentos de paz filtre através das sombras pesadas dos conflitos globais. Não olhamos para o lado porque a luz é bonita; olhamos com mais atenção porque a luz nos lembra exatamente o que as sombras tentam esconder.

No fim das contas, "ver bem" não é apenas notar o pássaro no galho, mas reconhecer a humanidade daqueles que nunca conheceremos, além de oceanos que ainda não atravessamos.

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